Lanada autobiografia de Nelson Mandela 

'Longa Caminhada para a Liberdade', livro do presidente da frica do Sul, est  venda desde ontem nas livrarias do pas 

FERNANDO ROSSETTI 

De Johannesburgo 

Por exigncia da editora, as livrarias sul-africanas s comearam a vender no final da tarde de ontem "Longa Caminhada para a Liberdade" (Macdonald Purnell, 630 pgs., R$ 20), a autobiografia de Nelson Mandela.

No foi a nica exigncia voltada a ampliar o impacto de uma obra que, sem publicidade, j tem garantia de vendas por retratar a vida de um dos polticos mais importantes da atualidade.

Em entrevista anteontem  rdio 702, a mais ouvida de Johannesburgo, Mandela afirmou que teve que "lutar muito" com a editora americana para que o livro mantivesse suas caractersticas originais.

Apesar disso, ele acabou aceitando "personalizar" o livro, que  narrado na primeira pessoa.

"Isso foi feito para agradar o enorme pblico leitor dos EUA e contrariou, de certa forma, a idia incial de que o livro deveria ser um registro histrico", afirmou.

Mas essa declarao apenas se soma aos 115 captulos do livro para demonstrar uma das caractersticas mais marcantes do presidente sul-africano: a humildade.

Mandela diz que sua politizao no se deu de repente: "O acmulo de mil desfeitas, mil indignidades e mil momentos foram produzindo uma raiva, uma rebeldia, um desejo de lutar contra o sistema que aprisionou meu povo".

Aps 27 anos de priso, Mandela liderou uma transio que muitos julgavam impossvel: a tomada do poder sul-africano pelos negros.

Mandela disse na entrevista que quer "ser considerado um santo, se por santo entendemos um pecador que continua tentando". E pediu pacincia  populao para as mudanas que ainda esto por vir.

O livro foi escrito em colaborao com o editor Richard Stengel, que acompanhou Mandela desde sua libertao em 1990.

 Apesar dos valores liberais da universidade, eu nunca me senti totalmente confortvel l. Sempre ser o nico africano, alm dos empregados, ser considerado na pior das hipteses uma curiosidade e na pior como um intruso, no  uma experincia agradvel. (...)

Wits abriu um novo mundo para mim, um mundo de idias e crenas e debates polticos, um mundo onde as pessoas eram passionais sobre poltica. Eu estava entre intelectuais brancos e indianos da minha prpria gerao, jovens que formariam a vanguarda dos mais importantes movimentos polticos dos anos seguintes. Descobri pela primeira vez pessoas da minha idade firmemente alinhadas com a luta pela libertao, que estavam preparadas para se sacrificar pela causa dos oprimidos.

Logo depois do amanhecer do dia 5 de dezembro de 1956, eu fui despertado por uma forte batida na porta. Nenhum vizinho ou amigo bate na porta de um jeito to peremptrio e eu sabia imediatamente que era a polcia de segurana. Eu me vesti rapidamente e encontrei o chefe de polcia Rousseau, um oficial da segurana que era conhecido na rea, e dois policiais. Ele apresentou um mandado de busca, quando os trs imediatamente comearam a revistar toda a casa procurando por jornais ou documentos incriminatrios.(...)

Depois de 45 minutos, Rousseau de fato disse: 'Mandela, ns temos uma ordem judicial para prend-lo. Venha comigo.' Eu olhei para a ordem e as palavras saltaram: ALTA TRAIO.

O maior acontecimento do pas em 1958 eram as eleies gerais 'gerais' apenas no sentido de que 3 milhes podiam participar, mas nenhum dos 13 milhes de africanos. Debatemos sobre realizar ou no um protesto. Uma eleio em que apenas brancos podiam participar fazia diferena para os africanos? A resposta, no que dizia respeito ao CNA, era de que no podamos ficar indiferentes mesmo quando ramos deixados de fora. Ns estvamos excludos, mas no insensveis: a derrota do Partido Nacional seria do nosso interesse e de todos os africanos.

Em 1969, chegou um jovem carcereiro, que parecia particularmente ansioso em me conhecer. Eu tinha ouvido rumores de que nosso pessoal do lado de fora estava organizando uma fuga para mim e tinha infiltrado um carcereiro na ilha que iria me ajudar.

Gradualmente, esse homem me informou que estava planejando a minha fuga. Ouvi o plano inteiro e no revelei a ele como soou sem confiana. Eu consultei Walter e ns concordamos que este homem no merecia confiana.

Nunca disse a ele que eu no faria, mas nunca tomei nenhuma das aes exigidas para implementar o plano. Ele deve ter entendido o recado porque foi logo transferido para fora da ilha. Minha desconfiana era justificada porque ficamos sabendo que o carcereiro era agente da Boss, agncia de inteligncia secreta da frica do Sul.

Eu acordei no dia da minha libertao depois de poucas horas de sono, s 4h30. Onze de fevereiro era um dia sem nuvens, de fim de vero, na Cidade do Cabo. Eu fiz uma verso reduzida dos meus exerccios usuais para regime, me lavei e tomei o caf da manh. (...)

Eu estava espantado e um pouco assustado. No esperava uma cena como aquela no mximo, eu tinha imaginado que haveria algumas dzias de pessoas, principalmente os carcereiros e suas famlias. Mas isso provou ser apenas o comeo. Percebi que ns no tnhamos nos preparado totalmente para o que estava para acontecer.
